A chegada mais esperada

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A chegada mais esperada

As mulheres já nascem com o instinto maternal. E quando chega a momento de planejar uma gravidez, a cabeça de toda mamãe – e papai – de primeira viagem fica cheia de dúvidas: o que fazer antes, a gravidez vai demorar para acontecer, como é o pré-natal, meu leite pode ser fraco, como será o parto… enfim. Para te ajudar a criar um pequeno guia da chegada do bebê, fomos conversar com Dra. Matilde Augusta Moura, ginecologista e obstetra pela PUC Sorocaba, formada há 32 anos e há 30 com consultório aqui na Lapa, tendo sido responsável pelo parto de muitas mamães da região. Nessa entrevista, ela fala sobre seu trabalho e dá recados importantes para as famílias que querem aumentar.

Quais foram os avanços que tiveram nessa área?
Mesmo se falando em partos dentro de convênio, que a gente mais faz hoje em dia, a anestesia melhorou muito. Antes a gente fazia cesária na paciente e ela nem conseguia se mexer na cama de tanta dor. Era um sofrimento muito grande, só era feito realmente quando tivesse risco para a mãe ou o bebê, e o risco de infecção era muito grande. Hoje em dia, há uma droga que a paciente fica dois dias sem sentir dor. E no terceiro dia já está melhor. Então ela consegue levantar, conversar, fazer tudo, nem parece que operou, está sempre bem. Os analgésicos melhoraram muito, o risco de infecção diminuiu muito porque os hospitais estão mais atentos para isso também. O uso de antibiótico de uma forma mais seletiva. Tudo isso vai aprimorando e melhorando e o pós-operatório fica muito melhor.

A gravidez demora para acontecer?
São uns seis meses. É legal ter isso em mente. Os pacientes acham que no primeiro mês tem que engravidar. Elas não tomam nada e têm relação todo dia, mas não é bem assim. A mulher menstrua e daí a duas semanas ela fica fértil. E se não engravidou, daí ela menstrua de novo. Então o período fértil é exatamente duas semanas depois que menstruou. O resto do mês não importa ter relação, tem que ter relação depois desses 15 dias, dois dias antes, dois dias depois. Esses cinco dias são os mais prováveis de ela engravidar se o ciclo for regulado direitinho. A gente dá o período de seis meses para engravidar porque todo casal sem problema nenhum pode demorar até seis meses para engravidar que é normal. Tem paciente que no primeiro mês que não engravidou vem desesperada achando que está com problema e não está. Se passou desses seis meses e não engravidar, aí precisa de ajuda que alguma coisa está acontecendo.

E sem ficar com paranoia, né?
As mulheres ficam com aquele stress de que tem que engravidar, faz exame toda hora, aí inibe mesmo. A nossa cabeça é fogo. Tive um caso que foi bem interessante. Ela não conseguia engravidar, fez vários tratamentos. Aí a irmã dela ficou grávida e ela vinha para a consulta com a irmã. E ela começou a curtir tanto a gravidez da irmã que comprava roupinha, ia nas consultas juntas… E em uma consulta ela contou que estava com a menstruação tão esquisita, que fazia uns dois, três meses que ela não menstruava mais. Falei para ela fazer uns exames e ela estava grávida. Então na hora que ela tirou a tensão de cima dela e começou a curtir a gravidez da irmã e esqueceu, aconteceu. O que eu já vi de mãe que adota crianças e assim que adota, daí uns três, quatro meses, engravida…

Como deve ser o planejamento da gravidez?
O legal é fazer todos os exames antes, para ver se não tem doença, ver se ela está imunizada para a rubéola. Estando tudo bem, aí já começa a tomar o ácido fólico, que na nossa alimentação tem pouquíssimo. Repondo o ácido fólico, evita má formação na parte neurológica da criança. E o acido fólico deve ser tomado desde o primeiro dia da gravidez. Se ela vem aqui para saber se está grávida, ela já vai estar com um mês de gestação, aí ela já perdeu o período mais importante de tomar o ácido fólico. Depois que engravidou, faz todos os exames – hepatite B, C, sífilis, tipo de sangue, se tem infecção urinária, hemograma, um ultrassom do começo para ver se a gravidez está dentro do útero, se o coração está batendo… Porque a parte mais sensível é até o terceiro mês, que nessa fase pode acontecer abortamento. E depois, consultas mensais. E se não tiver nenhuma intercorrência, no final da gestação a cada 15 dias. Agora cada caso é um caso, tem pacientes com problema de pressão, diabetes, obesidade, aí tem que estar acompanhando direitinho.

Os pais costumam acompanhar a gravidez?
Sim, eles estão participando mais, é bem gostoso. O pré-natal é mais difícil acompanhar pelo fato do trabalho, mas no parto eles estão lá, firmes, com máquina fotográfica, às vezes filmadora, tem pai que chora, é muito bonitinho. A hora que ele vê que o bebê nasceu, escuta o chorinho, eu acho que a ficha cai. Uma coisa que eu sempre faço é o pai tirar a primeira foto com o neném. A maioria morre de medo de pegar. Sempre faço ele pegar e tiro a foto. A mãe carregou o neném os nove meses e o pai ficou meio que assistindo isso. Na hora que nasce, ele é o primeiro a pegar, acho isso uma coisa tão legal. Ver o pai segurando o bebê ao lado da mãe é muito bom.

Durante as consultas, a vida do casal também é discutida?
Eu vou falando à medida que elas trazem dúvidas. Tem casais que têm medo de ter relação porque a mulher está grávida. E eu sempre falo que não tem problema nenhum. Só não pode apertar a barriga da mãe. Até para o neném é bom: é um momento em que os dois estão próximos, é um momento de amor, claro que para a criança isso também é bom. Tem homem que acha que vai cutucar o bebê, machucar, não tem nada disso. Ele está bem protegido dentro da barriga. Pode ter relação à vontade. Só não pode ter relação quando rompe a bolsa ou a paciente tem muita contração e risco de parto prematuro. Senão, parto normal, vida sexual normal.

Como deve ser a alimentação da gestante?
A grávida, o maior cuidado que ela tem que tomar é com a alimentação. Porque ela tem que comer igual criança: a cada três horas, fazer seis refeições por dia. Eu friso muito principalmente com casais que vão viajar. O marido, se ele tomar um bom café da manhã e for jantar só à noite, está perfeito, só que a grávida não pode. Tem que levar o lanchinho junto ou parar para comer. Passou de três horas, o que ela comeu o organismo já não tem mais o que metabolizar e começa a queimar a gordura da mãe para alimentar o bebê. E aí libera um componente que é tóxico para o bebê. Então a grávida nunca deve consumir da reserva dela e sim daquilo que ela está comendo. Só que aí tem que fazer a mágica de comer a cada três horas e não engordar muito. Evitar carboidratos. Cereais integrais são bárbaros, tudo o que vem do leite, carnes são importantes, verduras, legumes e frutas. Tem que olhar o que come e com uma alimentação fracionada. Porque o peso dela não deve exceder um quilo e meio no mês. No começo ela ganha pouquinho peso, mas da metade da gravidez em diante, é muito fácil ganhar peso. O peso excessivo leva a aumentar a pressão, leva à diabete gestacional, estrias, e é muito mais difícil voltar depois que ele nasceu. Se ela ganhar um peso legal, que é no máximo 15 quilos da gravidez, passou seis meses do parto, com ela amamentando, ela volta ao peso que ela tinha antes. Não precisa fazer esforço nenhum.

E o mito do leite fraco?
Isso não existe. Se você pegar o leite do peito da mãe ele é transparente, parece uma água. E o leite da vaca é todo branquinho. A pessoa pensa que o leite da vaca é mais forte. Mas o leite do peito tem tudo o que a criança precisa. O que acontece às vezes é que a produção do leite da mãe é pouca, então aí o neném quer mamar toda hora, ele começa a não ganhar peso. Isso tem que acompanhar e às vezes tem que complementar porque a quantidade do leite da mãe é pequena, mas leite fraco não existe não. E toda mãe acha que quando o neném nasce o peito já está pronto para amamentar, cheio de leite, e não está. O leite vai vir mesmo depois de dois ou três dias. O neném tem que sugar a mama, que tem só um colostro, um liquido docinho, e o fato de sugar o peito estimula para que seja formado o leite. Só que a natureza é tão sábia que ele demora dois dias para sentir fome. Então ele suga por instinto mesmo. Quando ele começa a sentir fome, seu corpo começa a produzir o leite. No começo, os dois têm que aprender – tanto a mãe como o bebê – como é essa questão de amamentação e depois com o tempo ele fica certinho, a cada três horas mais ou menos.

Para terminar, qual um recado que você daria para as mães?
Uma coisa que a gente vê muito hoje é a idade, é uma coisa que as mulheres deixam passar um pouquinho. Programe a primeira gestação para antes dos 35 anos. Depois dos 35 aumenta em três vezes o risco de má formação, tanto faz se ela mora aqui, nos Estados Unidos, no Japão, em qualquer lugar do mundo, é uma questão do nosso corpo, do envelhecimento. É um risco que não precisa se expor. E claro que, se ela pensar em ser mãe, antes passe em uma consulta no ginecologista, veja se a saúde está bem, faça os exames, comece a tomar o ácido fólico, tenha essa consciência de que pode demorar seis meses para engravidar que está tudo certo. Namorar muito, não ficar marcando data, que vai acabar acontecendo. Passou seis meses e não aconteceu, procure o ginecologista para ver o que esta acontecendo. E saber que sempre tem uma saída. Para cada caso tem uma solução. E seu filho acaba vindo.

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