Não é só rock’n’roll

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Alice, a filha, estuda audiovisual na UFRJ, e Lucinha, a mãe, se prepara para lançar mais um CD

A primeira mulher a tocar guitarra no Brasil, Lucinha Turnbull diz que seu trabalho não é rock, mas um sentimento do ritmo onde cabem vários gêneros.  

Lucinha Turnbull chega para a entrevista acompanhada da filha Alice Turnbull, de 22 anos. Além de ser a cara da mãe, enquanto Lucinha relembra fatos e coisas que curtia quando tinha a idade da filha, Alice reforça o que a matriarca conta como se tivesse vivido tudo na época mesmo em que as coisas aconteceram. Cita Dzi Croquettes, por exemplo e às vezes corrige informações que a mãe vai tentando puxar pela memória – “Chega um momento na vida que as pessoas contam a sua vida por você”, ri Lucinha –, mas a filha de peixe peixinho não é e não toca guitarra, a exemplo da mulher que tem a “Melhor Guitarra Rítmica do Brasil”, prêmio que Lucinha Turnbull recebeu da revista Pop em 1974, mas não foi receber. “Foi um ato meio de rebeldia, mas no fundo eu era muito tímida mesmo”. Alice mora no Rio e estuda audiovisual na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. A mãe…. bem, aos 60 anos de idade, Lucinha diminuiu um pouco a marcha, mas continua em movimento. Junto com o amigo Tonho Penhasco, está produzindo o CD Classe Média Requentada, do qual não quer falar muito. Quem assistiu ao show que os dois fizeram em janeiro na Funarte, dentro do projeto Quem vem lá?, ouviu um pouco do que vai constar no novo trabalho. A artista toca guitarra na Associação Meninos do Morumbi. Mora há um ano e meio em São Paulo, no Alto da Lapa, e diz gostar da região, pois tem muito verde, casinhas, é perto do metrô e dos amigos Alzira Espíndola e Guilherme Kastrup.

Sim, muito rock rolou na trajetória de Lucinha Turnbull. Mas suas influências e seu trabalho não se resumem ao ritmo que inebriou sua cabeça ao ouvir os Beatles. Lucinha é filha de pai escocês e quando ouvia a gaita de fole chorava. Também escutava os discos de Rita Pavone, que eram da irmã, e lembra que, aos nove anos de idade, economizou dinheiro da mesada para comprar o LP “I Can´t Stop Loving You”, do Ray Charles. Embora já tivesse noções de violão, tocava pandeiro na Capops, banda formada no prédio onde morava. 

Aos poucos, o tal do rock and roll foi entrando na sua vida. Ouvia pelo rádio o programa “Pop Go The Beatles”, transmitido pela BBC. Virou frequentadora assídua do programa do Ronnie Von, dedicado ao rock inglês. Foi lá que conheceu o grupo Mutantes. “Meu pai representava a revista inglesa Rave, eu a pegava e estendia os braços para mostrá-la aos Mutantes”. Aos 16 anos foi morar em Londres, entrou para uma banda folk, comandada pelo professor inglês, escreveu para Arnaldo Batista, integrante dos Mutantes, e não recebeu respostas. Quando voltou ao Brasil, foi ver o grupo no Clube Tietê e se apresentou: “Eu sou aquela tiete do programa do Ronnie Von e fui eu que escrevi uma carta para você”, disse a Arnaldo. Virou da turma.

Em 1972, voltou para Londres e lá adquiriu sua primeira guitarra. De volta ao Brasil, tocou na peça O Casamento do Pequeno Burguês, de Brecht, no Teatro Oficina; formou a banda Cilibrinas, com Rita Lee; tocou no Tutti Frutti, participou dos discos Refestança e Refavela, do Gil; tocou com Caetano, Guilherme Arantes, Erasmo Carlos, etc., etc. montou o trio Bandolim, com Péricles Cavalcanti e Rodolfo Stroeter, onde mandava músicas de Luiz Gonzaga a Stevie Wonder. Ufa! “Meu trabalho não é só rock, rock é um sentimento, gosto de Carmem Miranda…assim como os Beatles tocavam música caipira”.

Lucinha Turnbull
www.facebook.com/lucinha.turnbull

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