Os caminhos da economia

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Foto: Gerson Azevedo

Gerson Azevedo
Antonio C. Lacerda

Economista de formação, Antonio Corrêa de Lacerda nasceu na Vila Romana e mora na Vila Leopoldina. Nesta entrevista, analisa o primeiro ano do governo Bolsonaro e o que o Brasil precisa para crescer e gerar mais empregos.

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor e diretor da faculdade de Economia e Administração  da PUC-SP, onde se graduou e fez mestrado. “A Economia é uma ciência que vai além da análise de números e estatísticas. É uma vertente das ciências humanas”, lembra.

Além da vida acadêmica, atuou na iniciativa privada como executivo de empresas como a Siemens, dirigiu vários institutos, foi diretor da Fiesp, da Sobredi (Sociedade de Estudos sobre Globalização) “que foi pioneira ao tratar do tema aqui no Brasil”. Acaba de ser eleito presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon).

Livro-Antonio C. Lacerda-GAFundou em 2013 a A. C. Lacerda, empresa de consultoria econômica com sede em Perdizes. “Faço muitas análises às empresas sobre o cenário econômico do Brasil e suas perspectivas futuras”. É palestrante, escreve para jornais, e muito requisitado pelas mídias para falar sobre economia. Autor de vários livros sendo o mais recente “O Mito da Austeridade” (Contracorrente, 2019) onde “A chamada austeridade na política econômica representa um erro”. O livro tem textos do professor Lacerda e também de Ladislau Dowbor, André Paiva Ramos, Mariana Ribeiro Jansen Ferreira e André Luis Campedelli.

O Brasil, segundo o economista, “temos a mais baixa taxa de juros da história, 4,5%, mas vivemos uma distorção no Brasil: o juro básico é muito diferente do juro na ponta. Essa taxa não se reflete em todos os segmentos da economia”, alerta. Bom momento para as empresas buscarem financiamento? “Depende. Antes é preciso avaliar se é possível pagar o principal e os juros, sem problemas. Pode se tornar uma armadilha principalmente para empresas. Ao cair em uma dívida que não é compatível, a empresa pode ficar inadimplente e perde a capacidade de tomar outros empréstimos e outras implicações”, analisa. E lembra que “É alta a mortalidade entre as empresas, por vários motivos, mas os empréstimos são as causas mais comuns. Recomendo que sempre seja feito um planejamento porque empreender não é algo fácil. Com a crise muitas pessoas perderam o emprego e com suas economias partiram para um negócio próprio. Antes é preciso fazer uma pesquisa de mercado, saber os diferenciais que ele pode oferecer e muita persistência e paciência, entre outras”.

O planejamento estratégico o qual se refere  o professor serve tanto para empresas e pessoas físicas. “Existem oportunidades nas crises. Em tese é bom não ter patrão. Mas quem empreende em um negócio próprio, tem vários patrões, os clientes”, diz.

Para as pessoas físicas a armadilha pode estar nos juros exorbitantes cobrados pelos cartões de crédito e cheque especial. “Um produto comprado em parcelas pode custar, no final, algumas vezes o valor à vista se o comprador utilizar o financiamento dessas duas modalidades de financiamento. Há outras opções mais econômicas no mercado”, lembra.

Mas buscar um financiamento para a compra de um imóvel pode ser recomendável. Segundo o professor Lacerda, a compra de um imóvel, o prazo e se a taxa for compatível com a renda é bom. É uma forma de ter um patrimônio, e o aluguel não. E no futuro, se você quiser passar o imóvel para frente, tem um valor. Endividar-se com planejamento pode ser bom.”

Sobre a máxima que o brasileiro não poupa tem uma justificativa, aponta o economista, “O problema é que 90% da população brasileira ganha o suficiente para sobreviver e só! Entre os 10% restantes, incluindo aí a classe média e ter um planejamento financeiro é bom para todos”, ensina.

Incentivar e prestigiar os negócios locais é uma forma de fomentar empregos entre outros ganhos. “Faço isso na Vila Leopoldina, principalmente quando vou à banca de jornal comprar outros jornais, além dos que assino, e revistas”.

Um dos grandes problemas que o Brasil enfrenta é o enorme número de pessoas desempregadas. “Segundo o IBGE são 13,2 milhões de desempregados mas precisamos acrescentar nesta conta os cinco milhões de desalentados – que deixaram de procurar emprego e vivem de pequenos trabalhos e alguns estão investindo o tempo em mais formação. E com os sub ocupados, chegamos a 28 milhões. Precisamos pensar soluções globais que incorporem as questões sociais e ambientais, inclusive”, adverte o professor.

Sobre o primeiro ano do governo Bolsonaro, Lacerda é crítico. “Manter a inflação baixa é um ganho, em tese, para todo mundo. Mas o mercado não vai resolver tudo. Faltam políticas públicas e um plano de crescimento. O governo não pode depreciar a importância da sociedade civil e seus representantes. O mercado não vai resolver tudo. Países como EUA, Alemanha, Japão, China e Coreia do Sul cresceram graças as políticas públicas e infra estrutura (saúde, educação).

Mas vejo sinais positivos. As pessoas estão cuidando do público. A reciclagem consciente é um exemplo. E sem democracia e respeito à sociedade, o mercado não sobrevive. Precisamos diminuir as desigualdades no país assim c omo cria r mais oportunidade para gerar novos postos de trabalho. Se não for assim, só a barbárie sobrevive!”

Na comparação entre Brasil e Chile o professor Lacerda analisa que “Temos tudo para evitar o que está acontecendo no Chile aconteça aqui no Brasil. Me preocupa o desmonte do SUS e de programas sociais que sempre foi um diferencial para as camadas mais humildes. Eu estudei em escola pública e devemos, como cidadãos, exigir dos nossos eleitos, qualidade nos serviços públicos como saúde, educação, transporte…”

Caminhos que o país deve tomar para incrementar o crescimento que está em 1,2% neste ano? “Somos bem sucedidos em atração de investimento externo. Temos um mercado de 210 milhões e mesmo que boa parte não tenha poder de consumo, 400 empresas globais listadas entre as maiores 500 segundo a revista Forbes, estão presentes no Brasil. O Brasil precisa ter um planejamento estratégico e não ter a ilusão que o mercado vais resolver tudo. Países como Estados Unidos, Alemanha, Japão e mais recentemente China e Coreia do Sul cresceram com a combinação de políticas públicas, iniciativa privada pujante e estrutura básica (transporte, saúde, educação, tecnologias. As empresas que aqui chegam precisam ter compromissos com o país, além de gerarem empregos e impostos”. (GA)

A. C. Lacerda Consultores Associados, Telefone 3589-9010, www.aclacerda.com

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